sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Essa é minha cara enquanto vejo vocês se fuderem. Mas, confiem em mim. As pessoas só tem olhos para o que querem ver, esse é o segredo da magia.


Como eu já disse antes, tenho fugido de muitos funerais durante minha vida (um belo treino para fugir do meu próprio) .

A memória daquele que eu era no começo está afundada como fragmentos de cristal em um poço profundo de esquecimento.

Que ondulam através do meu desejo latente pelo vazio.

A noite observa e devora os espectros. Sorte da noite e dos espectros, pelo menos alguém se come nessa pocilga.

Puta noite quente...preciso de outro banho. E comer a puta noite... pra quê perder tempo?

Se eu gostasse de brincar com palavras eu diria que está uma noite infernal.

Interessante a associação de inferno com climas indesejáveis. Me lembra algo.

Era uma vez um cara que conheci certa noite num bar lá pelas tantas, já com a língua enrolada ele me fez uma confidência...

...e contou que tinha medo de ficar doente.

Eu entendo por quê.

Qual é a desses malditos sonhos, afinal? Não da pra cochilar nem dez minutos.

Dores de cabeça, náusea, escarros, cansaço o tempo todo... pelo menos estou perdendo barriga.

“Já faz muito tempo”, você mente pra si mesmo enquanto perambula nas ruas molhadas, como se pensando assim, de algum modo, justificasse todos esses anos endurecendo a alma.

Perda de tempo.

Por isso adoro gripes. Ati-termicos, vitaminas, xaropes, sempre tem uma infinidade de opções para sua melhora rápida. E quanto a alma?

Eu odeio não poder fazer nada. Eu me sinto como um rato pulando do navio... mas eu não posso fazer nada.

Está tudo indo pro inferno, justo quando agente tava chegando perto de escapar dessa sem ser pego.

Seu coração está prestes a explodir, subjugado pelo vazio, igual a um viaduto pra lugar nenhum as duas da madrugada.

A bomba está na sua mão porque você é o único que sabe a verdade... que isso estava pra acontecer, cedo ou tarde.

Que todos veriam através do seu ridículo subterfúgio... e descobririam que você tem tanto medo do escuro quanto eles têm. E eles te odeiam por isso.

Então chega a hora que você começa a questionar seus propósitos. Aí é quando chega o Diabo.

Você o ouve... rosnando para você. Uma impiedosa torrente de críticas, repletas do nosso próprio medo pela eternidade.

Você consegue sentir o jato psíquico dele se aliviando sobre sua consciência culpada.

O Diabo deve ter gastado um frenesi de risadas por me ver vacilar cheio de dúvidas e álcool , repleto de remorso. Ele só queria mostrar sozinho quem este escroto barbado era realmente.

Três horas depois, e nada de “idéia brilhante”.

Está quase na hora de fechar o bar.

Merda.

Ficar doente sempre é uma droga. A qualquer momento você pode morrer e o inferno reclama sua alma.

Estou com a sensação de que estou usando a abordagem errada. Ainda não entendi muito bem, mas tenho certeza que estou fazendo algo errado.

Peraí, errado não...diferente. Estou procurando ajuda de outras pessoas, me vitimizando, nutrindo pena de mim mesmo... como um cão que lambe inutilmente um buraco de bala esperando sarar.

Mas normalmente eu só conto comigo, não é?

Exatamente. Ajude-se, cara. Pense no assunto.

Mas pra tudo existe uma saída...puta merda... só tenho idéias imbecis, e essa é realmente muito doida, mas até pode dar certo.

Arrependimento não vale porra nenhuma. Sei lá... eu me arrependo de muita coisa, de que valem agora?

Todo o medo, o sofrimento, a tristeza e a angústia que senti pelo que fiz no decorrer dos anos...

Tudo termina hoje a noite e nada pode mudar esse fato.

Bem. Era agora que eu deveria lamentar e me arrepender de meus pecados, de ter sido um completo escroto, mentiroso e manipulador.

Eu quero que vocês saibam que sempre teve a ver com vocês, não a magia, os demônios ou coisa que o valha. Mas aos filhinhos da puta que trouxeram o inferno para suas próprias vidas.

O poder de vocês é como a magia, porque ele não existe a menos que um numero suficiente de pessoas acredite nele. De certa forma, é contra isso que venho lutando todos esses anos. Nessa crença.

Tudo que eu sempre quis foi que o mundo se livrasse de sua laia, seja no parlamento, no senado, nas juntas, nas ruas, nos bares, no céu e no inferno.

Talvez tudo isso seja inútil. Talvez as pessoas sejam pequenas demais pra se libertarem, talvez queiram vocês ai, cagando pra elas.

Mas, como um vendedor ansioso pra arrochar seu mercado e enganar os clientes, vocês estão muito felizes de poder explorar todo mundo.

Ah, fodam-se...

No que me concerne, vocês sempre foram o inimigo. Por isso, ouçam o que eu tenho a dizer.

Eu não lamento.

Eu pensei que sentia arrependimento, remorso ou culpa, mas não, foi só uma ilusão.

Eu não lamento nada.

Eu ainda posso concertar as coisas, desde que eu arruinei meu paraíso eu posso concertar as coisas. Você se lembra quando você arruinou seu paraíso? Eu lembro quando arruinei o meu.

Quando eu era menino eu brincava numa mata perto de casa, onde havia um rio que nenhuma mãe deixava suas crianças brincarem. Coisas legais sempre ficam em lugares legais. Galhos, cascas, insetos, espinhos, lama...

Certa vez cavando para fazer um poço para meus comandos encontrei uns ossos debaixo da lama. Revelei só um pouco antes do cheiro podre subir, eram as costelas. O Medo se misturou com a excitação, e assim se transformou.

As costelas eram pequenas, pareciam de uma criança um pouco menor que eu.

Pensei imediatamente que era o esqueleto de uma criança morta afogada e enterrada pelo velho do saco.

Alguma coisa cintilava imprecisa no peito dele. Lembrava uma manga seca, vermelha e com veias. Era o coração da criança-morta.

A mágica do coração iria me defender dos garotos maus, do velho do saco e iria me encher de hambúrgueres(eu era viciado naquela época). Confesso também ter tentado matar muita gente, mas não da pra se desejar o que ainda não se sente.

Eu ficava imaginando quantas vezes o seu coração bateu antes do velho do saco pegar a criança-morta. Será que ele tinha a afogado de uma vez, ou deixou trancado, esperando? A criança-morta estava só? Estava com medo? Ela tinha mãe ou pai para salva-la? E qual foi o segredo que o velho te mostrou? Era algo morto? Era o caminho pra terra do nunca? Era lá que a criança estaria agora?

O tempo transforma sentimentos. Aquela excitação retornou ao estado de medo.

Não devia tê-lo pego. “E se o velho do saco volta procurando por isso?”

Eu sentia o coração da criança-morta quente. Mas ainda com toda dor e a umidade, grudento como fluidos de insetos. Tudo parecia amaldiçoado e sujo. Eu queria me sentir livre.

Eu tinha desejado mal para as pessoas, o mal havia os alcançado. Eu era culpado, eu ia ser julgado, eu ia ser condenado, eu ia morrer. Eu tinha que levar de volta.

O medo corroendo minhas veias e segurando minhas pernas para que eu não voltasse para aquele túmulo. Antes de devolver ao seu peito putrefato eu decidi desenterrar o resto, queria ver seu rosto. Não raciocinei que até a carne já havia fugido dos vermes, eu só queria saber se parecia com alguém que eu conhecia.

Minhas mãos já nem se atreviam a tocar aquele corpo, usei um galho pra vulgarmente tentar revelar mais do que eu já tinha visto, eu sabia que a criança-morta iria ficar com raiva de mim por machucá-la daquela forma.

Seu rosto saiu da terra como uma minhoca querendo saber o que está acontecendo na superfície. Foi aí que eu entendi perfeitamente a magia. Foi naquele momento sujo e de suspense que me atingiu como um raio na cabeça o mistério de tudo.

Era um cachorro.

Brinquedos e desenhos animados de animais falantes não faziam mais o menor sentido depois daquele momento, porque era um cachorro. Era só um cachorro enterrado.

Me senti como quando agente joga a primeira pedra numa janela:

“Ai meu deus, foi muito forte. Acertou alguém...rachou sua cabeça, seus miolos estão espalhados e o sangue todo escorrendo em seu rosto, como mingau na camisa. Ele deve está morto, deve estar. Eles vão saber que fui eu. Mas ninguém viu. Ninguém saiu lá de dentro. Ninguém vai me bater. Me dei bem.”

Quando criança, em minhas aventuras, com um galho mexendo em um cachorro morto eu entendi perfeitamente a magia. Desde então tudo ficou trivial.

Ainda lembro de meu rosto quando sai daquela mata. Sorridente e vitorioso, ganhei um par de olhos novos naquele dia. Se eu tivesse um cigarro naquela hora eu haveria fumado.

As vezes na vida tem que ser tudo ou nada.

O que acontece quando você se olha no espelho e vê um ser decadente, doente e patético?

Como qualquer egocêntrico eu só percebo meu estado quando está longe demais, quando o pé está na cova. A negação é um dos maiores poderes da magia e deve ser usado com sabedoria. Era só uma questão de tempo até que 10 toneladas de merda caíssem na minha cabeça.

Exatamente como o inferno deseja minha alma, morta, envelopada e selada.

Se arrepender por salvação não é uma opção.

Afinal, quem precisa de salvação? Eu fiz o que fiz e faria de novo. Seria o mesmo filho da puta mentiroso, manipulador e aproveitador que eu sempre fui.

Quando A Idéia a mim chegou, fui lançado para um lugar abandonado.

Vou curar minha alma, e quem entende melhor de almas do que Diabos?

Esses sarnentos negociam almas desde antes do habito de cagar, mijar e copular. Tudo é questão de oferta e procura.

Aprendi no Poderoso Chefão a fazer ofertas irrecusáveis. E essa, nem o próprio Diabo ia recusar.

A magia começa quando traço uma auto-imagem de um eu possuindo cabelos brancos, um pulmão preto e com o rosto cheio de rachaduras da velhice. A ausência de um braço resultante de uma luta não contra o Diabo ou um homem, mas contra outra doença, da alma ou não, dá um toque todo especial de veracidade para a magia. Eu não vou morrer hoje.

Agora só preciso encontrar um lugar que os meus convidados sintam-se em casa, um lugar daqueles insidiosos e graves ultrajes da natureza que não deveriam existir.

Esses lugares sempre me dão vontade me mijar nas calças, mexer com Demônios e lugares profanos sempre é perigoso. Mas que se dane, já me machuquei tanto fazendo piadas com isso, que o próprio Diabo riu tanto que vomitou no meu coração. Então que venha o pior...como disse um grande sábio que conheci: “Aproxima-se. Imprestável e deturpada sombra...acha que tenho medo de encarar sua face escabrosa? Este é meu território. Eu sou o poder aqui.”

Por mais que os ventos uivem como se me condenassem, eu vou fazer.

Pode ser só nostalgia, mas resolvi fazer a cerimônia num local familiar. É bom conhecer o território nesse tipo de coisa.

A ultima vez que estive lá, o lugar parecia um açougue.

Já se passavam alguns anos, mas eu ainda me lembro do cadáver do capitão-planeta deslizando lentamente nas escadas mijadas, e a cabeça da sra chapa me fitando com as órbitas cheias de gozo de Demônio enquanto sr chapa flertava com minha mãe.

Não da pra beber aqui. O mal ainda ta ecoando pelas paredes, a espera que alguém se atreva a aceitar.

Se alguém tomar LSD aqui vai entrar em ligação direta com um mundo de merda.

O quintal sempre é o melhor lugar pra essas coisas. Entre caixas antigas de cerveja e lavanderias nunca usadas eu encontro a ponte certa.

Ainda bem que não preciso de nenhuma virgem pra sacrificar. Mesmo se precisasse, por que as pobres virgens sempre se dão mal nessas coisas?

Eu sempre preferi sacrificar porcos.

Você sabe, porcos, aqueles simpáticos pervertidos com doença de pele que só conseguem uma ereção se estiverem banhados em sangue de bode.

Quase tudo o que vou fazer aqui é básico. As invocações variam de um para outro.

O resto é bem fácil, nada de giz com sangue ou velas, símbolos místicos ou cânticos protetores, isso é pra amadores. É só gritar : “Ei, você ai nas trevas, você sabe quem eu sou. Vamos conversar”

Nomes são muito importantes nesse negócio. É fácil saber nomes quando se é um filho da puta carismático, eu tenho a maldita lista telefônica dos nove círculos. Os putos nem terão chance, sei até a lanchonete que eles costumam de pedir comida.

A magia verdadeira será apenas para esconder a placa de “vendido” da minha alma, assim posso vendê-la varias e varias vezes. Essa será a grande magia, e uma coisa eu sei, vai custar muito caro.

O resto do plano não tem muito segredo. É só repetir isso umas centenas de vezes até conseguir sua alma vendida para o máximo de demônios diferentes. Fácil como pegar dezenas de mulheres na mesma festa sem que elas saibam.

Só é preciso ter sangue frio e dar pausas pra recuperar o fôlego, lembrando sempre que não se deve olhar o diabo tão de perto, isso sempre fode sua cabeça.

A experiência é quase sempre igual, só mudam o tema, a essência é a mesma. O sangue do demônio respinga no chão, uma mácula obscena que devora a memória e onde se reúne forma poças mais negras que a noite. Sempre vejo meu rosto refletido nas poças. Embora esteja distorcido e mutilado, eu não tiro os olhos dali. Mas lá vai uma dica: É melhor do que olhar pra eles. A todos eles eu peço o mesmo, a cura da minha alma. E em troca, quando eu morrer, minha alma vai coleção deles.

E assim foi feito.

Três vezes atado.

Três vezes maldito.

Três vezes condenado.

Pra descansar pedi uma cerveja naquele galinheiro, pior do que estava não ficaria. Fui pra fora e procurei um lugar para sentar que não estivesse mijado, cagado ou vomitado. Sentei e esperei. Ai chega a parte final da magia, acreditar que vai funcionar.

Diabos são seres muito egoístas, nenhum vai abrir mão da minha alma para o outro, ainda mais pelo fato de eu ter passado tantos deles pra trás.

É, eu sei, é a idéia mais retardada que vocês já viram. Um brinde pra todos vocês pela perspicácia. Um brinde a mim, eu também mereço uma dose e porque... bem... no fim, eu fiz do meu jeito.

Quando eles descobrem que eu trapaceei o jogo deles é quando começa o meu. O mais perigoso momento da mais perigosa partida que já joguei. Se caírem nessa, vai ser ganhar na mega-sena.

Esses putos são orgulhosos demais para entrarem num consenso, eles gritam entre si, discutem, como lordes pomposos digladiam entre si com intimidações e diplomacia. Por mais estranho que pareça soa como cães uivando, risinhos zombeteiros, alarmes de carros descontrolados e aviões pousando. Seria engraçado se não fosse trágico.

Então eles começam a bravejar sobre ladainhas das novas fofocas do inferno, rancores antigos. Nada que eu não soubesse, afinal, sempre recebo postais de lá.

Eles precisam cair, vão cair.

Não tenho mais nada. Não me decepcionem. A linha está na água com uma suculenta minhoca no anzol. Vamos seus putos. Se todos vocês brigarem por minha alma vai ficar difícil de esconder que foram enganados por um pirralho filho da puta. Deixem pra lá e me dêem o que me prometeram, é o acordo.

Mordam a isca.

E eles mordem.

Decidem saciar meu desejo para varrer pra debaixo do tapete nosso segredinho sujo, sendo obrigados a curar minha alma para não brigarem entre si e para que não fique em evidencia que foram passados pra trás por um bêbado mijado.

Assim me curaram, mas fizeram questão que fosse da forma mais dolorosa possível. Alcançam minha alma através da carne.

Não consigo gritar.

Eu quero muito, mas não consigo, eles partem minhas costelas uma a uma e aí erguem meu esterno com o barulho de uma árvore caindo. Depois torcem o osso para cortar algumas cartilagens.

Assim que empurram meu coração de encontro à coluna para afastar do caminho, eles mergulham as mãos no pântano negro e barrento em que se transformou minha alma. Eles incineram a doença, recria e substitui tudo. Por alguma razão isso dói dez vezes mais.

Jogado no chão, ainda não podia respirar com a garganta ainda esmagada, e tudo que ouvi saindo de mim foi um chiado leve, escapando do X-tudo que costumava ser minha boca.

Terminam felizes... como se isso fosse apenas uma amostra grátis do que me espera quando eles arrumarem uma forma de se vingar. Enquanto isso me reconstroem contra vontade.

Por fora estou um lixo, me sinto como aquelas sobras de gordura após a lipoaspiração.

Por dentro estou exultante, cantando a plenos pulmões, quase literalmente andando nas nuvens.

Dá pra sentir o ódio pairando no ar. Esses putos querem meus bagos tostados num espeto com meu escalpo servindo de salada.

Eu sou o homem mais odiado de todos os tempos.

*Mas as regras do mercado ainda se aplicam a mim, toda troca tem um preço. Dessa vez fiz com que não levassem minha alma, mas minha magia teve um custo. Me custou o amor que eu guardava pelos meus. Todos os meus.

Dos meus amigos me dói pouco ver morrer meu amor por eles. Afinal, era sempre eu que jogava cinzas em seus pratos e maculava suas vidas. Sempre que fui para o inferno os levei comigo, como um covarde que se segura nas cortinas quando é arrastado pra guerra.

O amor pelos do meu sangue foi um terror assistir cair e me ser servido numa bandeja para contemplar. Mas não senti nenhuma culpa, e não podia lamentar por algo que finalmente havia conseguido, um sonho poderoso, algo que finalmente foi banido para um esquecimento frio. Minha carência, minha fraqueza, minha humanidade. Convicto de que a dádiva de minha vivência não era um direito e sim uma obrigação. Havia cansado de ser chamado de criança dourada. Eu era uma criança especial, eles diziam. Eles me oferecem seu amor de boa vontade hoje, eu não posso recusar. Eu rio e me faço gargalhar...mas nunca mais os acolherei.

É claro, eu gostava deles, mas até então não sabia que este mundo era só meu parque de diversões... um caminho para coisas melhores.

Uma vez mais, me recolho para minhas memórias... são sempre vivencias que são boas de repetir e sempre tem algo novo, quase como voltar no tempo para prever o futuro, uma dimensão paralela para reflexões.

Me vejo entediado, esperando enquanto minha avó rezava no túmulo de sua mãe, eu me pendurei numa lápide e encontrei o caminho do amor a seguir, o caminho veio até mim e estendeu o braço. Eu o reconheci na hora, e senti a clara distinção que nos separava. Ele parecia tão frio e franzino, que um súbito ímpeto de piedade me impeliu a abraçá-lo e confortá-lo. Mas seus olhos vazios possuíam uma vacuidade que nunca poderia ser preenchida. Eu sufoquei aquele surto de simpatia que sabia não poder proporcionar. Pensei em lhe oferecer o amparo que podia dar, mas eu nunca mais seria livre. Suas carências desesperadas corromperam meus propósitos e transformaram meus olhos em pó. Então lhe neguei o amparo de meu reconhecimento... o desprezei com um olhar cruel, me virei, e fui embora. Esse caminho não seguirei.

Minha avó aparece nesse meu lugar de revelação e escolhas. Surge dizendo para eu não fazer isso com ela, que seus olhos estão muito velhos e turvos para ver sem luz.

Eu queria que ela soubesse que algumas vezes, olhar muito para a luz só ofusca e oculta a verdade. Algumas vezes a escuridão é mais honesta.

Os Demônios assistem enquanto renego o amor e vago sem propósito por este vale de lágrimas... onde o vento nauseabundo bafeja nos corpos suspensos de todos aqueles que matei com amor. Quando você é um Demônio é bem sedutora a imagem de ver um heróico e honrado destino afundando na lama, era meu próprio jogo.

Este é o fim da espiral para o começo de outra. Abro a porta que me devolveria a minha vida banal e monocromática.

Antes de entrar, o round final se mostra. Eles me perguntam como terão certeza de que nosso segredo estaria a salvo.

A idéia veio de parte alguma, como uma bala esculpida pela loucura, e por um instante eu considero ignorá-la e sair dali.

Mas aí...eu me lembro que tenho uma reputação a zelar. Me viro e sorrio com um sorriso que eles verão em seus pesadelos e digo “confiem em mim”. Demônios são seres muito burros mesmo. Sabe por que não gosto deles? Porque sou melhor.

Nada como um chute no saco quando o juiz anuncia o vencedor.

Entro porta a dentro agasalhado com mentiras, arrogância e falso orgulho.

Quando olhava para o céu da minha realidade cai na lama. E cai gritando através daquela densa noite vermelha ainda resplandecendo em primitiva consciência.

Sabe o que dizem sobre noites quentes... sempre chove.

Caminhei duas horas até me sentir limpo.

Só não me esqueço de encher a cara de cana e cigarros baratos (é a única coisa que se compra de madrugada) e comecei a me perguntar o porquê das coisas acontecerem comigo.

Mas então aquilo começou a se mostrar pra que veio...

Pequenos barracos habitados por pessoas pequenas.

Hordas de escrotos pseudo-niilistas grudadas nas próprias TVs e computadores como moscas na merda.

Comodismo descontente que só envolve conquistas com joysticks em vídeo-games.

Que a única comunicação com o mundo externo é o mal-humorado ruído branco do éter industrial.

Tudo sob a incansável desculpa de ter a porra de um plano, não que o velhaco do andar de cima não pudesse remover essa essência deles com um reles estalar dos dedos figurativos dele, só que ele não se incomoda. Deus está pouco se lixando enquanto rodamos e cagamos como numa casquinha de sorvete nas nossas vidas.

Me acham louco, acho que estão certos. Afinal, pra quê contrariar o perfeito panorama de nossa sociedade consumista?

Nem um relacionamento se consegue hoje sem uma boa grana pra engasgar a dama.

Mas não é isso que a maioria das mulheres gostam? Um lugar bacana para comer, uma carona pra casa num momento confortável, longas bajulações, presentes caros, viagens e hotéis...

É, amigos, doce ilusão se você pensa o contrario.

Esse é o problema com o mundo, brother.... não vale a pena salvá-lo.

É hora de esticar as pernas e andar.

Desde que tive meu encontro com os Babilônicos nada parece muito diferente no mundo. Pelo jeito, ainda não foi desta vez.

Os Dragões não ficaram tempo suficiente pra mudarem nossas mentes, nos tivemos a chance de construir um futuro brilhante... Mas nós fomos lentos e burros demais.

Quem sabe, na próxima vez nós temos mais sorte?

Até lá, podemos continuar com nossas mentes pequenas neste mundo pequeno, nos preocupando com problemas pequenos como comer, arranjar dinheiro e achar um lugar quente pra dormir. Aliás, tudo isso me falta.

É a primeira vez que fico liso em anos, mas esta é a era das forças do mercado, sempre rola uma grana pra quem tem imaginação e conhece as pessoas certas.

Então é isso. A coisa toda vem em seu típico e tortuoso ciclo maldito. Tenho medo do que me tornei. Tenho medo de nesses dias estar abrindo a barriga de minhas mulheres para arrancar meus futuros filhos e dar para o Diabo lamber do chão como um caramelo no tapete, ou tentar matar algum Anjo pra vestir seu rosto.

A estrada é que dirá.

Eu me sento em outra pedra, escutando o som da água.

E no fim, isso não foi tão terrível assim. Quer dizer, ninguém se machucou muito. Nada que não possa ser consertado no devido tempo.

Ninguém morreu.

Exceto eu.





Prontinho. Tá feliz agora? Feliz em ver o mistério resolvido? Em ver como tudo se mostra como uma boceta aberta as avessas?

Porra, vocês são os maiores cuzões do Brasil... Eu to falando por experiência própria. Afinal, ainda ontem eu tava no seu nível de insignificância.

Por que vocês ficam todos assanhadinhos pra verem a resolução dessa porcaria aqui? Cuidem da suas vidas.

Você se mata de trabalhar 12 horas por dia, engorda de tanto se empanturrar de comida barata... e seu conjugue, é quase garantido que está tranzando um sexo selvagem com outro alguém, agora, no seu canto favorito do sofá.

Só porque vocês tem uma puta TV de plasma e uma coleção de DVDs não significa que você é um cara livre, ô filho da puta. Vocês não passam de uns escravos bem pagos, como tantos outros fudidos por ai. Esse blog é só 15min de intervalo na sua vidinha medíocre. E depois?

Você tinha certeza que o mundo foi sempre assim, não tinha? Infestado de guerras, fome, terrorismo e eleições forjadas.

Mas hoje ficou mais esperto, não é? E sabe qual a grande ironia? Tá afim de saber o que me faz morrer de rir, agora que estou do outro lado?

É que você simplesmente vai fechar essa janela e abrir outra procurando em sites de vendas alguma outra coisa pra preencher o enorme vazio que você sempre soube que sua vida foi. Talvez comprar um aparelho eletrônico ou um relacionamento novo faça você se sentir melhor.

Aqui eu me despeço com meu ultimo post. A merda desse blog nunca fez muito sentido pra mim, mesmo. Esse lugar caiu como um castelo de cartas. Será apenas um cemitério de lembranças, quero ficar velho e vir aqui pra ver as porcarias que eu escrevia e quem sabe ter um pouco de inspiração.



“Não enfrentes monstros sob pena de te tornares um deles, e se contemplas o abismo, a ti o abismo também contempla.” - Friedrich Wilhelm Nietzsche



sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Quando a verdade é sua inimiga, é quando se luta mais...


Que ressaca do demônio...

Fazia um tempão que eu não enchia a cara e bancava o idiota. Recentemente eu tenho bebido quase sempre sozinho...

Vai ver é minha segunda adolescência. Daqui a pouco começo a plantar maconha em vasinhos e monto uma banda punk chamada “Fuck the sister” depois.

Todos saem para trabalhar e eu vou procurar encrenca. Bom, não é bem assim... é o que eu geralmente faço quando não tenho pra onde ir... procurar alguma merda e me enterrar até o pescoço, além de ferrar o infeliz do meu lado.

Mas não da pra fazer isso sempre, né?

Isso foi antes, achei que tudo tinha mudado, mas nada está diferente.

Não adianta desistir de procurar encrenca, yargo. A encrenca encontra você.

O mais esquisito mesmo, é que não é preciso ser sensitivo...qualquer babaca perceberia que tem alguma coisa no ar...

Não adianta tentar esconder formigas em um casaco. Se uma delas peida, revela todo mundo.

Sanguessugas...sempre rondando a noite. Pobres coitados.

Deixo que me mordam, eles me mordem tão rápido que nem consigo pensar.

Pobres coitados, não sabem ou não lembram que meu coração cansado ainda bombeia o sangue sujo do demônio.

Eles engolem como carvão incandescente e tentam se arrastar moribundos para a escuridão.

Não enquanto eu estiver por perto. Tomo um gole do meu whisky e ofereço um brinde ao nascer do sol.

E eu bebo.

Tem gosto do mal, ódio, cuspe, crueldade, sadismo. Tem gosto de foder com os outros cretinos de uma vez por todas...

Tem gosto de vitória...E não vou desperdiçar nenhuma gota.

Então volto a minha vida fria e doente na pedra e no ferro, como um mijo do céu em uma parede sem saídas, para que eu possa me enfiar na merda...

E sem pensar sobre como poderia ter voado.

Milhares iguais nesse mundo, muitos mais que não tem sorte nenhuma nessa vida...e eu aqui reclamando.

Foda-se, no fim do dia, palavras não são suficientes...e nunca são.

Acredite.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Jantar a luz de velas


Bela moça está morta, e eu a devorei. O que resta dela está apodrecendo em algum lugar num caixão de pinho, enquanto eu tenho a oportunidade de estar sentado aqui no terraço, apreciando minha bebida e olhando para você. Corrija-me se eu estiver sendo presunçoso, mas acho que tive um fim melhor que o dela.

Só de olhar, posso dizer que você não está entendendo. Claro que não — estamos numa época cínica e racional. E você não vai acreditar que eu a devorei porque estou dizendo. Há um século atrás isso seria

diferente.

Ela teria centenas de nomes se eu acreditasse numa palavra dela. Mascarada com perfume da paixão... ela guarda espectros mais fascinantes e imediatos que qualquer cena de filme.

Ela era uma combustão espontânea.

Fico me perguntando o que ela fez para merecer tal destino...condenada ao inferno.

Sempre com uma voz cantada e um andar dançante, ela parece uma abelha rainha escolhendo seu zangão. Era uma quimera transformando-se em tudo que pertence ao fimamento. Era uma divindade que não conhecia o significado da verdade ou a muito o tinha esquecido.

Então a Besta acordou. A Besta vive em um lugar que não é bom para a imaginação e não traz sonhos repousantes a noite. A Besta não é do feitio das coisas do mundo de deus. É alguma coisa de outro lugar.

A Besta é uma constante de instinto camuflada de tudo que é e foi selvagem.

Foi quando a devorei.

Bebi seu sangue.

Lambi sua carne.

Roí seu osso. E desse eu chupei até a ultima gota de sua alma.

A quimera despediu-se com uma gargalhada azeda de se escutar...

Não ouve sabor de vitoria no final.

Na noite sem lua tudo mudou, mas continuava igual.

De uma coisa não existe a menor duvida sobre a quimera.

Eu sentiria saudades sua até sem a conhecer.

terça-feira, 2 de junho de 2009

O Bode negro da floresta dos mil filhos



Os portões para os Reinos das Fadas estão fechados. A humanidade virou suas costas para a mágica em favor de um novo sonho — um sonho de um mundo estéril e banal com nenhum mistério ou maravilha. Um mundo onde todas as perguntas foram respondidas e todos os enigmas do universo foram resolvidos. E ainda, na busca por essa Utopia, muito da humanidade perdeu um pouco de si mesma. Eles esqueceram como sonhar...

Deus nada mais é do quê duas crianças gordas brincando de banco imobiliário, as peças que as não interessam elas molham no leite e dão para o cachorro comer. E vejam amados leitores, como nosso Criador é piedoso. Vou expressar numa tempestade de latidos cansativa de ler.

Em algum lugar...realmente não importa onde...há um navio, trilhando seu caminho através do mar gelado.

Seu nome não é importante...poderia ser Lusitânia, General Belgrand ou Titanic...mas algo soa familiar nisso.

O fato, talvez esse não seja só um navio...talvez seja uma amálgama de muitos navios.

Todos com uma coisa em comum:

Problemas.

Se você fechar os olhos e imaginar, pode ouvir os gritos dos homens queimando sem chance de escapar. Suas entranhas sentem o estrondo jorrando água superaquecida.

Se você escutar com atenção, pode ouvir o que eles ouviram... a tensão da música através da água enquanto a banda toca.

É um navio mercante transportando certo tipo de terror através de milhões de noites sem sono.

É um barco de pesca descendo a toda em algum lugar de águas desconhecidas.

É um passageiro em fila gritando em protesto, rebites espalhados como milho. Aço se curvando encoberto pela fumaça, uma chaminé nas ondas.

É um eco final de um grito enquanto outra alma perdida sucumbe à força do oceano.

Olhe na mais profunda escuridão da sua consciência... bem atrás dos sonhos de angustia e medos irracionais...e você vai encontrar esse navio.

Seu vapor avança por um mar de sonhos febris, em direção à morte inevitável. Ele representa a nós, e tudo o que temos.

Cada navio que já afundou, ou irá afundar.

Não importa, tudo aconteceu a muito, muito tempo atrás.

E vai acontecer de novo.

Uma forte marca sobre a estrutura de nossas almas que levam a uma pergunta óbvia, “onde você estava quando aconteceu?”

Daqui a dez, quinze, vinte anos e ainda vamos estremecer com a memória. Vamos acordar de um sono intermitente, engasgados com a lembrança.

Mas hoje, tudo o que podemos fazer é assistir em silêncio como na primeira vez em que vimos este símbolo, como um rugido retumbante, Ícaro cai, cai...e cai.

Como merda de passarinho no seu ombro.

Por toda parte...tudo ao mesmo tempo. Não importa quando.

Em algum lugar na Polônia vinte e duas horas atrás, uma mina desmorona. Dezessete são enterrados vivos.

O mesmo desastre com a mina reverbera de volta no tempo, ressurgindo como carne queimada e vigas estraçalhadas uns vinte anos antes em Bellysburgo. Matando oitenta e sete.

Para ecoar num terremoto ainda por vir, em algum lugar no sudeste da Califórnia.

O mesmo som aterrador retumba através das eras.

Há muito tempo a terra cospe fogo de repente. Uma cidade de milhões não está preparada para a destruição vulcânica que está chegando.

Abaixo, faces testemunham o reflexo das emoções de toda humanidade.

Acima, uma imagem grotesca marca a mente coletiva da humanidade. Uma familiar luz brilha no céu.

Em algum lugar, a mina desmorona.

Quanto a mim, de repente percebo como tudo está conectado.

Acontece numa minúscula fração de segundo, e por toda a história.

Em algum lugar... realmente não importa onde...passageiros aparentes estão ocupando uma aeronave que pode nem sequer existir.

É um negócio bem comum abordo desta amálgama de todos os aviões que já desceram por essas pistas de decolagem, ou irão.

Não há nada de errado obviamente no lado de dentro... apenas um vago e indefinido mal-estar. O rotineiro ar de trepidação que você encontra abordo de um grande pedaço de metal que não deveria estar no céu.

Mas este aqui está tomando a direção errada, seguindo para uma colisão numa auto-estrada de simultaneidade.

Agora, levando um passageiro extra e inesperado.

Apesar de tudo, nada disso está realmente acontecendo.

Talvez seja só um vôo imaginário, ou talvez uma premonição.

Tem um barulho crescendo, em algum lugar no compartimento de carga, da pra ouvir.

É um zumbido, igual ao de uma bomba prestes a explodir, mas se você ouvir com atenção, tem algo diferente.

Um milhão de vozes conectadas através do espaço-tempo.

O som de alguém se afogando.

Que porra essa lata de sardinha ta fazendo no ar?

Essa bosta é um vôo para não-fumantes.

Foda-se, afinal, que diferença faz?

Um bebê começa a chorar desesperadamente, sua mãe começa a chorar desesperadamente. O executivo gordo começa a chorar desesperadamente. O homem que está indo ver o casamento de seu melhor amigo começa a chorar desesperadamente.

O tempo parece hesitar por um instante. O som de um piloto limpando a garganta é o som de uma mina desmoronando.

Agora, todo mundo sabe com absoluta certeza que alguma coisa está terrivelmente errada. A horrível proporção continua até ser vista.

“Senhoras e senhores passageiros”. O pronunciamento vai começar...

“Atenção por favor, certifiquem-se que suas bandejas estão travadas e que suas poltronas estão em posição vertical, vamos todos morrer agora.”

É a explosão obrigatória lá em baixo, no compartimento de carga. Um dano a meia-nau.

É cada desastre, interligado através do tempo. Se prestar atenção, você consegue ouvir todos.

Uma conexão é feita através do espaço-tempo. Vítimas do passado, presente e futuro são postas juntas numa experiência compartilhada, singular para sua situação.

Cada um deles sabe muito bem morrer.

Posso estar lá embaixo deitado na minha cama, mas consigo sentir o que eles sentem.

É um rugido no vento. Impotência absoluta.

É uma raiva. É uma fumaça se elevando na cabine, obscurecendo tudo.

É uma idéia ridícula: “talvez eu possa encontrar a saída, saltar e sobreviver?”

É uma oração...

Sem ninguém pra responder.

É um grito de “não é justo!” de olhos fechados.

Nada novo, de qualquer forma.

Nada mudou.

Tudo está diferente.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Não desperdice seus cigarros comigo!



Sempre tive a impressão de que a solidão prolongada nos coloca em contato com nosso “eu” interior, faz com que consigamos enxergar de forma extremamente nítida aquilo que faz parte de nós mesmos e aquilo que é influência externa. Para imaginar se aquilo que fazemos de nossas vidas é realmente original de nossa pessoa, costumo imaginar como viveria se estivesse numa ilha deserta, sem nenhuma pessoa por perto e sem nenhuma chance de vir a encontrar alguma pelo resto de minha vida. Nesta situação, todos os esforços que tipicamente imaginamos como sendo “nossos” apresentam-se somente como uma interiorização de objetivos sociais. Penso que aquilo que faríamos se estivéssemos condenados a viver sozinhos pelo resto de nossas vidas seria o nosso eu mais original e independente, apesar de que ele parece-me lamentavelmente pobre; talvez isso aconteça porque, sem ilusões, realmente somos pobres em conteúdo.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Quando eles estiverem certos.


Você provavelmente deve estar imaginando o que eu to fazendo aqui.
Vou te pôr a par de um segredo. Você não é o único surpreso. Eu sempre achei que você seria a ultima pessoa que eu viria atrás.
Mas eu...eu precisei. Entenda... isso é sobre mim. Minha vida, digo...
Ta tudo indo pra puta-que-pariu. E a porra toda é minha culpa.
Mas de quê te importa? Afinal é só mais uma historia... ou estória, quem sabe?
Esse começa...como sempre começa... com uma desconcertante sensação de calma. Águas turbulentas abaixo de uma superfície tranqüila.
O aviso vem de novo, bem tarde. Chega em minha cama num gelado vento de verão. E mais obscurecido pelos ruídos dos subúrbios.
Eu o sinto puxando insistentemente. Mas eu tento ignora-lo na vã esperança que se chateie e vá embora.
Eu compenso fugindo pra dentro de um sonho...
...pra acabar encontrando uma paisagem, sem duvida bem real.
Aí, outra camada é retirada. Outro aspecto da minha situação é revelado.
Por fora, o sonho revela a mesma velha sensação de calma. Mas eu posso ver a verdade... um presságio das coisas que virão.
Estou sozinho.
Tudo está morto.
E mesmo que eu acorde na manhã seguinte entrando num futuro frescor, irá ter um belo pé gelado roçando no meu enquanto durmo...cansei de ter algo querendo beber meus ossos sempre que eu acordo.
“não vou mentir pra você...temo que a situação seja grave.”
Seria o que um médico falaria se meu caso se tratasse de uma doença.
Eu posso até sempre estar fumando onde é proibido fumar e estar sempre jogando cinzas no prato das pessoas...
Mas eu me vejo como boa pessoa.
Sabe o que me incomoda mesmo?
Quando você tenta fazer uma boa ação e ainda é criticado por isso.
E sabe o que é pior?
Quando eles estão certos.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

As boas intenções sempre pavimentaram a estrada pro inferno.


Você é mesmo um moribundo filho-da-puta, yarguim.
Mas é a vida, né? Cheia de altos e baixos, idas e vindas...
A gente joga com as cartas que tem nas mãos. E um homem esperto sempre carrega um par de ases na manga.
Lembrando que carta nenhuma no mundo lhe ajuda quando se sente um gosto no ar parecido com ferro quente.
A única alternativa é se acovardar, ficar anônimo.
Bem, não da para ficar mais anônimo do que bebendo no buteco atrás da sua casa. É preciso de anonimato... pelo menos, ate descobrir qual é minha situação atual.
Mesmo se acabei de salvar o mundo praticamente sozinho.
Mas é absolutamente normal isso, nem serve pra se sentir especial.
Acontece quando você chega perto demais do fogo...
Principalmente se sua vida parecer com um Natal no Afeganistão..
Na falta de outra coisa, é melhor aproveitar... me bronzear e respirar um pouco de ar marinho.
Quem sabe...? talvez minha pele melhore...
Se deitar e fechar os olhos, é bastante agradável.
O mar desdentado lambendo...uma velha praia de açúcar.
Vozes de criança ao vento... pipas distantes, altas, puxadas através do céu.
Quase da pra admirar as crianças...mas sempre tem uns pivetes pentelhos...
Incrível! Não temos dinheiro pra manter o planeta limpo... mas dá pra comprar uns brinquedinhos pros meninos!
Malditos pivetes, deviam crescer e arrumar namoradas.
Como eu. Eu tive algumas namoradas, mas fui descuidado... as perdi... as matei.
Mudando de assunto...
Merda! Vem vindo alguém...
As vezes, se você fechar seus olhos e ficar imóvel, pode ficar invisível.
Avestruzes sabem disso.
Pessoas...muitas pessoas...o problema do mundo é esse...são muitas pessoas.
Meu deus! Estamos todos condenados, não é mesmo?
A espécie inteira está migrando pro inferno nas férias.
Nossas penas azedas e ensangüentadas não nos deixam mudar de rota.
Quero voar alto, confiante e livre.
Quero encarar o olho quente do sol.
Porque nesse mundo, há dragões rompendo suas cascas...
E anunciando seu nascimento com horríveis gritos incandescentes...
Linguas-de-fogo golpeando como num duelo de espadas... lambendo o mundo até virar cinzas...
Jogando os nossos sonhos... quebrados, queimados e ensangüentados... à terra nua.
Gritando:
“CAIAM!”
Mudos de medo, assistimos insensíveis enquanto o novo animal estica suas asas como cortinas sobre o mundo...